Como ofertas para devs são montadas
Uma oferta é um pacote, não um número
Rafael é desenvolvedor Rails júnior no Recife. Numa terça de manhã, ele abriu a caixa de entrada e encontrou duas ofertas que chegaram com quatro horas de diferença. A primeira veio de uma fintech brasileira. Era um contrato CLT com salário mensal em reais, plano de saúde, vale-refeição e início em três semanas. A segunda veio de uma startup remota americana. Ela oferecia uma taxa mensal em dólares, paga a ele como contractor pelo próprio CNPJ. Nenhum benefício aparecia, e queriam que ele começasse na segunda seguinte. O primeiro instinto dele foi comparar os dois números e escolher o maior. Este curso existe para desacelerar esse instinto. Uma oferta é um pacote de decisões sobre dinheiro, risco e o jeito como você vai trabalhar. As duas ofertas de Rafael diferem em quase todos os eixos, exceto no fato de que as duas empresas o querem.
O que está dentro de uma oferta
Tire o papel timbrado e toda oferta, brasileira ou estrangeira, é feita das mesmas poucas peças. Há um valor base e a frequência de pagamento. Há um tipo de contrato, que decide o que acontece se a relação terminar mal. Há um conjunto de benefícios, vindo da lei ou da política da empresa. Há um arranjo de equipamento e uma data de início. Por último, e fácil de esquecer, pode haver uma data por escrito em que o valor base é revisto. Duas ofertas com o mesmo número de destaque podem diferir muito quando você alinha todas as peças, além da primeira.
Oferta A (fintech brasileira) Oferta B (startup remota dos EUA)
Contrato: CLT Contrato: PJ / contractor internacional
Base: R$ X mil/mês Base: USD X mil/mês
Benefícios: plano de saúde, Benefícios: não listados na oferta
vale-refeição
Início: em 3 semanas Início: na segunda seguinte
Por que "quanto paga" é a pergunta errada para começar
Perguntar "qual oferta paga mais?" antes de nomear o tipo de contrato é como perguntar qual de dois veículos é mais rápido antes de ver se um deles é uma bicicleta. Um salário CLT de R$ 5.000 por mês e uma taxa PJ de R$ 5.000 por mês são ofertas diferentes. A CLT traz 13º salário, férias pagas, FGTS e uma rede de segurança que o PJ não tem. Uma taxa de contractor em dólar ainda passa por um câmbio que se move todo mês. Uma pergunta melhor para começar é "que tipo de arranjo é esse, e o que esse número significa dentro dele?". A aula 3 monta a aritmética dessa comparação.
Os dois universos de onde uma oferta pode vir
Ofertas vêm de dois universos: uma empresa brasileira ou uma estrangeira. Dentro deles, quase toda oferta que um desenvolvedor júnior recebe no Brasil tem um de quatro formatos. O primeiro é um contrato CLT com uma empresa brasileira. O segundo é um contrato PJ, em que você emite nota fiscal pelo próprio CNPJ. O terceiro é um arranjo de contractor estrangeiro pago em dólar. O quarto, menos comum no nível júnior, é uma empresa estrangeira te contratando como CLT por meio de um Employer of Record (EOR), que atua como seu empregador legal em nome dela. O curso de nível estágio "Conquistando o estágio: da candidatura à oferta" já cobriu o básico de CLT versus PJ. Ele também defendeu que a CLT costuma ser a escolha mais simples para começar. Este curso presume que você lembra disso. Ele vai além, na aritmética, na opção de EOR e no que muda quando a empresa contratante está fora do Brasil.
O remoto global não tirou as perguntas brasileiras de cena, só somou outras
Uma oferta remota de uma empresa fora do Brasil não apaga CLT, FGTS ou nota fiscal da conversa. Ela soma uma camada por cima. A oferta americana de Rafael ainda exige que ele descubra como receber em dólar, converter e declarar isso à Receita Federal. Ela também deixa em aberto se a empresa pode um dia oferecer um arranjo de EOR no lugar da relação direta de contractor. Uma oferta remota muda quem paga e em que moeda. Rafael continua morando, pagando impostos e, mais cedo ou mais tarde, precisando de plano de saúde no Brasil.
O que um júnior deveria e não deveria esperar de uma oferta
Equity é raro no nível júnior fora de um punhado de startups. A ausência dele numa oferta é normal e não é sinal de alerta. Não gaste energia de negociação nisso na primeira vaga. Espere, sim, uma declaração clara do tipo de contrato. Espere uma lista de benefícios em vez de uma linha vaga de "benefícios competitivos". O ideal é haver uma data por escrito, muitas vezes em 90 dias ou seis meses, em que seu valor base é revisto. Essa data de revisão pesa mais numa primeira oferta do que as pessoas imaginam. Os aumentos mais rápidos de um júnior costumam vir dessa primeira revisão, mais do que da negociação antes de assinar.
Uma autoavaliação rápida
Antes da aula 2, pegue qualquer oferta que você já recebeu ou espera receber em breve. Liste cada peça da segunda seção acima: base, tipo de contrato, benefícios, equipamento, data de início e data de revisão. Algumas podem dizer "não especificado" por enquanto. Uma oferta sem metade dessas peças não é necessariamente ruim. Ela está incompleta. As próximas aulas ensinam a pedir as peças que faltam sem soar como se você estivesse negociando antes de aceitar conversar. Pergunte-se também qual formato cada oferta tem: CLT, PJ, contractor estrangeiro ou EOR. O resto deste curso presume que você sabe nomear isso antes de fazer qualquer coisa com o número.
Para onde este curso vai
A aula 2 cobre como pesquisar salários em dólar e em real. Não existe um número único e correto, então a aula ensina a ler fontes que se contradizem e a triangular uma faixa realista. A aula 3 aprofunda CLT versus PJ. Ela mostra a aritmética que explica por que uma taxa PJ precisa ficar bem acima de um salário CLT para empatar. Também cobre o que um Employer of Record muda numa oferta estrangeira. A aula 4 cobre benefícios, equipamento e termos do trabalho remoto, do vale-refeição à ajuda de custo de home office e ao período de experiência. A aula 5 trata de pedir mais sem perder a oferta. A aula 6 cobre como recusar e como aceitar bem. A aula 7 junta tudo numa única conversa de oferta, do início ao fechamento.
As duas ofertas de Rafael continuam em cena ao longo das sete aulas. Trabalhar uma comparação real, peça por peça, ensina o método mais rápido do que qualquer regra sozinha. No fim, você terá uma checklist para aplicar a qualquer oferta que chegue na sua caixa de entrada.
Continue com a aula 2
Pesquisando salários em USD e BRL
Mostra por que as fontes salariais divergem e como triangular uma faixa realista em dólar e em real.
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